Rui Manuel Amaral

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Artigo de Miguel Martins na revista Colóquio/Letras

In Uncategorized on 26/09/2011 at 21:28

Doutor Avalanche é o segundo livro de Rui Manuel Amaral (autor nascido no Porto em 1973), dando seguimento a Caravana, publicado, em 2008, pela mesma editora [Angelus Novus].

Constituído por 44 “microcontos” e 4 poemas à maneira de intermezzi, a autoria estende-se, neste caso, à própria ficha técnica apresentada em colofão do livro (impresso “12 anos, 7 meses, 10 horas e 23 minutos após o autor ter fumado o seu primeiro cigarro Balkanskaya Zvezda (Klassika)”), revelando o todo, uma vez mais, o despretensiosismo lúdico, a prodigiosa imaginação, os admiráveis recursos de construção frásica, a elegância na adjectivação, a economia de meios (indispensável a esta aposta) e a invulgar destreza narrativa, que são, pode afirmar-se desde já, marcas da escrita de Rui Manuel Amaral, e que se encontram firmemente ancorados nas melhores tradições fundadoras deste tipo de (divertidíssimas) estórias.

A inconclusividade, a ausência daquilo a que é costume chamar “moral da história”, o puro prazer de produzir surpresa, quando não verdadeiro espanto, e, sobretudo, o fino humor são constantes nestes textos, o que os filia, desde logo, numa série de tradições orais que, à escala planetária, são repositório de narrativas análogas.

A este propósito, leiam-se, a título de exemplos, Contos Populares Moçambicanos, organizado por Eduardo Medeiros (Maputo, Ndjira, 1997) ou, no que a Portugal diz respeito, Os contos de Fajão (Fajão, Junta de Freguesia de Fajão, 2008), compilado pelo Padre A. Nunes Pereira, em cujo prefácio este estudioso aponta as semelhanças entre os contos por si recolhidos naquele concelho beirão e os famosos Contos de Beckum (Vestefália, Alemanha), reproduzidos em variadas edições de “Unsere Beckumer Anschlage”.

Ora, estas tradições vieram a ter amplas e diversas repercussões na literatura mais canónica, sendo que, no que ao caso vertente diz respeito, nos pareceria imperdoável não citar As Aventuras do Barão de Münchhausen, obra setecentista inspirada na tipologia atrás mencionada mas cujas versões mais difundidas são as dos alemães Rudoph Erich Raspe (1737-1794) e Gottfried August Buerger (1747-1794), como muito bem assinalou Paulo Pereira (Expresso, 08/11/1986), bem como a do francês Théophile Gautier (1811-1872), esta ilustrada por Gustave Doré e vertida para Português por Henrique Forjaz Trigueiros (s.l., Editorial do Povo, 1945) .

Dando um salto no tempo, quanto ao século XX  parece óbvio aludir a Franz Kafka e aos grandes autores do “Absurdo”, de Ionesco a Beckett e a Topor, e, até, em virtude de alguns dos mecanismos empregados, ao Woody Allen de Para acabar de vez com a cultura (Lisboa, Bertrand, 1989).

Contudo, do que, em nosso entender, este Doutor Avalanche mais se aproxima é do Henri Michaux de Um certo Plume (Lisboa, Hiena, 1992, incluíndo uma excelsa “leitura” de René Micha, em jeito de posfácio) e, no que à relação en passant com a morte (desumanizante ou reumanizante, conforme se preferir) diz, concretamente, respeito, do Magnus Mills de O Curral das Bestas (Porto, Asa, 1999) e de Nada de novo no Expresso do Oriente (Porto, Asa, 2001).

Entre as “cousas de espantar”, como diria Bandarra, que podemos encontrar neste livro, destaque para: mortos que renascem; um tinteiro derramado que escreve, per se, um texto inigualável; um corpo que procura a cabeça; uma lagarticha que se transforma em homem, que se transforma em vaca, que se transforma em elefante; um homem que se evapora e que, ao cair das nuvens, racha a cabeça, e cujo nariz se torna uma “coisa curiosíssima, meio batata meio pepino”; orelhas de vidro que restituem a visão a um cego; uma crise cardíaca debelada por uma brigada de minas e armadilhas; um baralho de cartas dotado de consciência; peixes que pescam o seu eterno pescador; um cientista que aprisiona Deus num tubo de ensaio; um homem a que os espelhos retribuem, de cada vez que os olha, uma cara diferente; um outro que, em virtude de uma noite de folia alcoólica, acorda dentro de uma garrafa; uma prótese ortopédica com vida própria (vida essa, aliás, assaz desregrada); línguas e orelhas amovíveis; um homem cujos pés se transformam em peixes; um outro cujo interior da cabeça, devidamente atapetado, é lar de formigas, que lhe fomentam a inteligência; um tempo que regride; um homem com dois corações, enamorados um do outro; poetas mortos que lêem a sina na planta dos pés de outros mortos; um homem que estimula a produção frutícola espancando, sem misericórdia, as pobres árvores.

E tudo isto é apresentado, como atrás dissemos, com um humor que revela uma postura aristocrática perante a vida (e o que possa ser, e o que é, a Literatura), postura essa adversa àquela grosseria já renegada por Fernando Pessoa/Barão de Teive, ao afirmar que: “Todos os indivíduos grosseiros têm necessidade da nota sexual; é ela, até, que os distingue. Não podem contar anedotas fora da sexualidade; não sabem ter espírito fora da sexualidade. Vêem em todos os pares uma razão sexual de serem pares.” (A Educação do Estóico, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999).

Por fim, uma merecidíssima referência aos quatro intermezzi poéticos, a que aludimos anteriormente e que, não obstante o contexto e os propósitos dele decorrentes, nos parecem, quer pelo seu sentido, quer pela sua disciplina formal, quer, ainda, pela sua coerência, em muito superiores à maioria da produção poética de autores portugueses surgidos em livro na última década.

Essa coerência leva, aliás, a que, embora se espraiem, no livro, por quatro momentos espaçados, os apresentemos aqui como uma unidade, que, sem dúvida, constituem. Vejamos:

“Quando os pássaros calçarem tamancos/ E pelo ar voarem búfalos,/ As rosas e os lírios derem bróculos,/ E as rãs tocarem flauta,/ O Dia de Finados passar sem lamentos,/ Escura for a neve e brancas as trufas,/ E os ricos colherem chicória, /Só então te esquecerei.// Quando os mudos narrarem fábulas/ E os alemães deixarem de beber,/ Os ratos caçarem gatos/ E os cães fugirem das lebres,/ Quando no céu se armarem mesas,/ Amargo for o açúcar e doce a pimenta,/ As árvores cobrirem o mar e a água engolir as/ montanhas,/ Só então cessarão as minhas mágoas.// Quando os grilos praticarem esgrima/ E sobre cordas dançarem asnos,/ Os caçadores virarem macacos/ E das cebolas brotarem videiras,/ Quando a lua iluminar o dia,/ O gelo envolver o relâmpago/ E os dias de Agosto forem mais do que frios,/ Só então secarão as lágrimas nos meus olhos.// Quando as cabras entoarem canções/ E a Páscoa calhar no Carnaval,/ Quando os charlatães estudarem Física/ E à sobremesa se comerem cinzas,/ Quando os cães deixarem de ter testículos/ E os campos passarem a ser ruelas,/ Só então, rosto cruel,/ Este alquebrado coração será feliz.”

Uma nota final para a desconcertante onomástica de que Rui Manuel Amaral faz uso ao longo de todo o livro: Fabrice Borel, Lazaros Leumorfis, Dietrich Dahl, Zurbin Raimondi, Skila Krivonóssovitch, Gugur Buxtorfius, Troysler Heusinkveld, Caroline Blasius, Gildrig Glumdalclitch, Christian Zender, Markus Grob, Vivienne Bugowski, Christoph Robbé, Zavalo Zabehlice, e Cláudio Sokhiev, e isto para citar, apenas, quinze das primeiras personagens da obra. Maslav Daslov, esse, tem, inclusivamente, direito a nota de rodapé, uma das muitas, e engraçadíssimas, que pontuam o livro: “Há no conjunto formado por este nome e apelido um efeito pouco eufónico produzido pela repetição do grupo fonético [az] e pela semelhança entre os grupos fonéticos [lav] e [lov], que o torna um tanto ou quanto desagradável. Infelizmente, não há nada que se possa fazer.”, p. 71.

Miguel Martins, Revista Colóquio/Letras, n.º 178, Setembro de 2011.