Rui Manuel Amaral

A opinião de António Guerreiro, no Expresso

In Uncategorized on 23/12/2010 at 15:08

Contos de coisa nenhuma

O autor chama-lhes microcontos, mas tal definição formal do género a que pertencem os textos que compõem este livro (o segundo de Rui Manuel Amaral, depois de “Caravana”, de 2008, na mesma editora) não apreende outros traços importantes da sua singularidade. É certo que a curtíssima dimensão desta quase meia centena de ‘contos’ – alguns não ultrapassam uma página e, em geral, ficam-se por uma página e meia – implica uma série de processos e dispositivos literários que exacerbam a artificialidade da máquina narrativa. Fundamental é, então, a invenção sintética e concentrada, que decorre sempre da primeira frase ou, pelo menos, do primeiro parágrafo: “Zak Marahan tirou a língua da boca e pousou-a com muito cuidado em cima do lavatório”; ou: “Se eu quisesse podia contar muitas histórias sobre o dito cujo”; ou ainda: “Lazaros Leumorfis tinha o hábito de segurar a cabeça com as mãos porque acreditava que a qualquer momento esta podia desprender-se do pescoço e cair ao chão.” Mas há outros aspectos em jogo igualmente importantes. Antes de mais, o facto de as histórias se passarem no reino da acronia e da atopia, destituídas de qualquer referência que não seja criação do texto) e de os nomes próprios serem invenções linguísticas que sugerem nomes eslavos, germânicos, latinos ou gregos.

O único nome próprio subtraído a este engendramento inventivo que realça o seu carácter de jogo é o de Gregor Samsa, a personagem da “Metamorfose”, de Kafka, que aparece referido num dos microcontos. Mas até esta referência a uma personagem literária acentua a recusa de sair do artefacto literário, de entrar em protocolos com a realidade e a verosimilhança e de conceber um texto que não seja uma metaliteratura infinita. E não se pense que esta referência autoriza analogias com as parábolas de Kafka. Não é de parábolas nem de alegorias que se trata nos microcontos de “Doutor Avalanche”. Aqui, não há teologia nem metafísica: há a lógica da invenção narrativa como um jogo combinatório de palavras e frases; há uma poética da mentira que se opõe a toda a edificação. E assim entramos numa cascata de invenções hilariantes que se recusam a conferir qualquer realidade ao mundo que não seja a de uma escrita hieroglífica. Estamos num terreno que se opõe vigorosamente aos mecanismos da elaboração romanesca. As histórias deste livro podem ser interrompidas e decepcionar a expectativa do leitor, a descontinuidade e a falta de lógica podem ocorrer, a história pode ser a ausência de história. Em suma, o mundo paralelo destes microcontos é criação de uma penumbra mental a que podemos chamar escrita.

António Guerreiro, semanário “Expresso”, 18 de Dezembro de 2010.

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  1. Este é um grande livro! Obrigatório! Aconselho igualmente o Caravana!

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