Rui Manuel Amaral

“Doutor Avalanche”, segundo Pedro Mexia

In Uncategorized on 10/12/2010 at 16:22

O prestígio omnisciente

A chamada “micro-ficção” é com frequência uma variação breve e frouxa sobre o género “conto”, mas nada impede que use de minúcia e de uma atenção às palavras próprias de um bom poema. É o caso das micro-ficções de Rui Manuel Amaral, que depois de “Caravana” (2008) volta ao registo com “Doutor Avalanche”.

O impulso narrativo é bastante forte nestes textos, mas é quase sempre um impulso incompleto ou sabotado. Comecemos pelos finais das histórias: raramente temos uma moralidade ou um fechamento, geralmente o fim é seco, abrupto, insólito, interrompe a história, frustra expectativas: “Sem dúvida que o leitor não esperava este desenlace, que não tem qualquer relação com a lógica mais elementar. E a própria sintaxe é um tanto discutível. Mas nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita” (pág. 26). Na verdade, nenhuma história tem que obedecer às regras canónicas, às expectativas comuns. É por isso que muitas vezes Amaral recorre ao truque surrealista do “mas não” ou do “ou não”, que torna instável a narrativa: “E pronto, é tudo. / Esperavam talvez que, de repente, alguma coisa conduzisse a história numa direcção totalmente diversa? Que irrompesse de algum lado um grão de areia, uma pedra, um vidrinho afiado que colocasse um ponto final em tanta felicidade? Compreendo. Mas não” (págs 57-58).

Às vezes o narrador diz que “só o diabo sabe como isto acabou”, outras vezes até sabe como acabou mas não nos conta. E quando o narrador confessa uma lacuna, acrescenta: “Isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente”. Mas a culpa não é dele, pois é como se as histórias tivessem vida para além de quem as conta. Seguimos por exemplo o caso de um indivíduo que perdeu literalmente a cabeça, e que a procura por todo o lado, mas depois a odisseia é bruscamente terminada com o pretexto, hilariante, de que o homem teve entretanto outros assuntos mais urgentes.

Embora haja sabotagem de expectativas, “Doutor Avalanche” é um livro generoso. A dedicatória, ao “leitor” e à “leitora”, não é uma simples “captatio benevolentiae”, mas revela uma genuína crença nos poderes da imaginação.

Muitas destas histórias precisam de facto do leitor, da leitora, só quem as lê as completa, quer em termos narrativos quer na questão do sentido. Essa generosidade é quase única na nova ficção portuguesa.

Os contos de “Doutor Avalanche” são com frequência fantásticos ou absurdos, e alguns assumem uma componente alegórica. As personagens têm nomes estranhos como Gildrig Glumdalclitch, e profissões bizarras como fabricantes de olhos de vidro, e sobre elas sabemos pouco ou nada; de um certo homem é-nos apenas dito que está “um pouco coiso”, e qual de nós nunca acordou um pouco coiso?

O micro-conto supõe uma história mais curta do que o seu resumo, mas muitas destas ficções têm uma situação básica onde está o essencial. Podem ser situações onde a alegoria é imediata: o bêbado que se vê metido dentro de uma garrafa, o marido farto da mulher e que uma noite se evapora, um homem que desaparece de um momento para o outro como um relâmpago e outro que nunca reconhece o rosto ao espelho.

Noutros casos, a alusão é mais sofisticada: uma equipa de emergência médica funciona como uma brigada de minas e armadilhas, o canibalismo dos amantes, órgãos do corpo humano que se desprendem, uma mancha de tinta que forma um texto perfeito. Não são textos obscuros, mas quase todos valem além da sua dimensão de fábula. O escritor cria uma funda inquietação por exemplo descrevendo uma vida perfeita interrompida por ataques de comichão; o caso é caricato, mas mostra com grande eficácia que o imponderável espreita, banal ou maligno.

Algumas histórias parecem ser sobre a revolta da natureza, como é o caso da árvore que nasce no meio de um apartamento e que rapidamente transforma a casa num bosque, uma espécie de “Walden” doméstico. Uma estratégia várias vezes usada é tornar a linguagem literal, como o homem que diz “raios me partam” e é partido por raios, ou inverter um cliché, caso da folha branca que olha para o homem que escreve. Outros textos são mais inexplicáveis, como aquele homem de cuja barba toda a gente se ria, e que corta a barba esperando ter uma vida normal, e afinal só encontra a indiferença. E há uma excelente fantasia literária sobre um morto que interpreta, no mundo dos vivos, o papel do pai de Hamlet, que morreu.

A dimensão lúdica dos textos é reforçada pelas notas de rodapé, muitas vezes inúteis ou falsas (uma delas remete para uma foto inexistente), mas o texto é também intercalado por um poema elegíaco, supostamente uma tradução de um texto anónimo italiano do século XVII, e que retoma alguns exageros verbais das histórias, mas desta vez de modo tristíssimo, pungente, e francamente desconcertante.

Esta constante mudança de registo, e a mestria técnica que revela, faz de “Doutor Avalanche” o livro de ficção menos aborrecido do ano.

Pedro Mexia, Ípsilon (jornal Público), 10 de Dezembro de 2010.

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