Rui Manuel Amaral

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“Doutor Avalanche” no programa televisivo “Ler + Ler Melhor”

In Uncategorized on 28/12/2010 at 14:45

Programa Ler + Ler Melhor dedicado a Doutor Avalanche, emitido na RTPN, no dia 27 de Dezembro de 2010.

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A opinião de António Guerreiro, no Expresso

In Uncategorized on 23/12/2010 at 15:08

Contos de coisa nenhuma

O autor chama-lhes microcontos, mas tal definição formal do género a que pertencem os textos que compõem este livro (o segundo de Rui Manuel Amaral, depois de “Caravana”, de 2008, na mesma editora) não apreende outros traços importantes da sua singularidade. É certo que a curtíssima dimensão desta quase meia centena de ‘contos’ – alguns não ultrapassam uma página e, em geral, ficam-se por uma página e meia – implica uma série de processos e dispositivos literários que exacerbam a artificialidade da máquina narrativa. Fundamental é, então, a invenção sintética e concentrada, que decorre sempre da primeira frase ou, pelo menos, do primeiro parágrafo: “Zak Marahan tirou a língua da boca e pousou-a com muito cuidado em cima do lavatório”; ou: “Se eu quisesse podia contar muitas histórias sobre o dito cujo”; ou ainda: “Lazaros Leumorfis tinha o hábito de segurar a cabeça com as mãos porque acreditava que a qualquer momento esta podia desprender-se do pescoço e cair ao chão.” Mas há outros aspectos em jogo igualmente importantes. Antes de mais, o facto de as histórias se passarem no reino da acronia e da atopia, destituídas de qualquer referência que não seja criação do texto) e de os nomes próprios serem invenções linguísticas que sugerem nomes eslavos, germânicos, latinos ou gregos.

O único nome próprio subtraído a este engendramento inventivo que realça o seu carácter de jogo é o de Gregor Samsa, a personagem da “Metamorfose”, de Kafka, que aparece referido num dos microcontos. Mas até esta referência a uma personagem literária acentua a recusa de sair do artefacto literário, de entrar em protocolos com a realidade e a verosimilhança e de conceber um texto que não seja uma metaliteratura infinita. E não se pense que esta referência autoriza analogias com as parábolas de Kafka. Não é de parábolas nem de alegorias que se trata nos microcontos de “Doutor Avalanche”. Aqui, não há teologia nem metafísica: há a lógica da invenção narrativa como um jogo combinatório de palavras e frases; há uma poética da mentira que se opõe a toda a edificação. E assim entramos numa cascata de invenções hilariantes que se recusam a conferir qualquer realidade ao mundo que não seja a de uma escrita hieroglífica. Estamos num terreno que se opõe vigorosamente aos mecanismos da elaboração romanesca. As histórias deste livro podem ser interrompidas e decepcionar a expectativa do leitor, a descontinuidade e a falta de lógica podem ocorrer, a história pode ser a ausência de história. Em suma, o mundo paralelo destes microcontos é criação de uma penumbra mental a que podemos chamar escrita.

António Guerreiro, semanário “Expresso”, 18 de Dezembro de 2010.

“O fantasma de Fabrice Borel”, conto incluído em “Doutor Avalanche”, traduzido para o italiano por Stefano Valente.

In Uncategorized on 22/12/2010 at 09:48

Il fantasma di Fabrice Borel

L’eternità è una rottura. Ma ciascun morto ha i suoi metodi particolari per combattere la noia. L’attore Fabrice Borel, per esempio, continuò a fare teatro dopo la morte. Era molto richiesto per il personaggio del padre di Amleto, poiché era uno dei suoi più superbi interpreti.
Quasi ogni stagione il fantasma di Borel ritornava in mezzo ai vivi per stupire i grandi palcoscenici mondiali:
– Amleto, io sono lo spirito di tuo padre.
E pronunciava la battuta nella sua voce terribile di morto, e in modo così convincente che il pubblico ghiacciava sulle poltrone, strappando applausi entusiastici e critiche eccellenti sui giornali.
Tutto andò molto bene per anni e anni e anni e anni. Fino al giorno in cui, durante una rappresentazione presso il Theater an der Winkelwiese (*), gli cadde addosso parte dello scenario, provocando la sua morte immediata. La sua seconda morte, ben inteso. Dopo l’incidente, che sconvolse il mondo dell’arte e il pubblico dell’epoca, decise di abbandonare definitivamente il teatro. Attualmente, si dedica al commercio di cavalli.

(*) Winkelwiese, 4, 8001 Zurigo.

Tradução de Stefano Valente, aqui.

“Doutor Avalanche” e “Caravana” na Poesia Incompleta

In Uncategorized on 17/12/2010 at 15:40

Doutor Avalanche e Caravana na livraria Poesia Incompleta, Rua Cecílio de Sousa, 11, Lisboa.

“Doutor Avalanche”, segundo Pedro Mexia

In Uncategorized on 10/12/2010 at 16:22

O prestígio omnisciente

A chamada “micro-ficção” é com frequência uma variação breve e frouxa sobre o género “conto”, mas nada impede que use de minúcia e de uma atenção às palavras próprias de um bom poema. É o caso das micro-ficções de Rui Manuel Amaral, que depois de “Caravana” (2008) volta ao registo com “Doutor Avalanche”.

O impulso narrativo é bastante forte nestes textos, mas é quase sempre um impulso incompleto ou sabotado. Comecemos pelos finais das histórias: raramente temos uma moralidade ou um fechamento, geralmente o fim é seco, abrupto, insólito, interrompe a história, frustra expectativas: “Sem dúvida que o leitor não esperava este desenlace, que não tem qualquer relação com a lógica mais elementar. E a própria sintaxe é um tanto discutível. Mas nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita” (pág. 26). Na verdade, nenhuma história tem que obedecer às regras canónicas, às expectativas comuns. É por isso que muitas vezes Amaral recorre ao truque surrealista do “mas não” ou do “ou não”, que torna instável a narrativa: “E pronto, é tudo. / Esperavam talvez que, de repente, alguma coisa conduzisse a história numa direcção totalmente diversa? Que irrompesse de algum lado um grão de areia, uma pedra, um vidrinho afiado que colocasse um ponto final em tanta felicidade? Compreendo. Mas não” (págs 57-58).

Às vezes o narrador diz que “só o diabo sabe como isto acabou”, outras vezes até sabe como acabou mas não nos conta. E quando o narrador confessa uma lacuna, acrescenta: “Isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente”. Mas a culpa não é dele, pois é como se as histórias tivessem vida para além de quem as conta. Seguimos por exemplo o caso de um indivíduo que perdeu literalmente a cabeça, e que a procura por todo o lado, mas depois a odisseia é bruscamente terminada com o pretexto, hilariante, de que o homem teve entretanto outros assuntos mais urgentes.

Embora haja sabotagem de expectativas, “Doutor Avalanche” é um livro generoso. A dedicatória, ao “leitor” e à “leitora”, não é uma simples “captatio benevolentiae”, mas revela uma genuína crença nos poderes da imaginação.

Muitas destas histórias precisam de facto do leitor, da leitora, só quem as lê as completa, quer em termos narrativos quer na questão do sentido. Essa generosidade é quase única na nova ficção portuguesa.

Os contos de “Doutor Avalanche” são com frequência fantásticos ou absurdos, e alguns assumem uma componente alegórica. As personagens têm nomes estranhos como Gildrig Glumdalclitch, e profissões bizarras como fabricantes de olhos de vidro, e sobre elas sabemos pouco ou nada; de um certo homem é-nos apenas dito que está “um pouco coiso”, e qual de nós nunca acordou um pouco coiso?

O micro-conto supõe uma história mais curta do que o seu resumo, mas muitas destas ficções têm uma situação básica onde está o essencial. Podem ser situações onde a alegoria é imediata: o bêbado que se vê metido dentro de uma garrafa, o marido farto da mulher e que uma noite se evapora, um homem que desaparece de um momento para o outro como um relâmpago e outro que nunca reconhece o rosto ao espelho.

Noutros casos, a alusão é mais sofisticada: uma equipa de emergência médica funciona como uma brigada de minas e armadilhas, o canibalismo dos amantes, órgãos do corpo humano que se desprendem, uma mancha de tinta que forma um texto perfeito. Não são textos obscuros, mas quase todos valem além da sua dimensão de fábula. O escritor cria uma funda inquietação por exemplo descrevendo uma vida perfeita interrompida por ataques de comichão; o caso é caricato, mas mostra com grande eficácia que o imponderável espreita, banal ou maligno.

Algumas histórias parecem ser sobre a revolta da natureza, como é o caso da árvore que nasce no meio de um apartamento e que rapidamente transforma a casa num bosque, uma espécie de “Walden” doméstico. Uma estratégia várias vezes usada é tornar a linguagem literal, como o homem que diz “raios me partam” e é partido por raios, ou inverter um cliché, caso da folha branca que olha para o homem que escreve. Outros textos são mais inexplicáveis, como aquele homem de cuja barba toda a gente se ria, e que corta a barba esperando ter uma vida normal, e afinal só encontra a indiferença. E há uma excelente fantasia literária sobre um morto que interpreta, no mundo dos vivos, o papel do pai de Hamlet, que morreu.

A dimensão lúdica dos textos é reforçada pelas notas de rodapé, muitas vezes inúteis ou falsas (uma delas remete para uma foto inexistente), mas o texto é também intercalado por um poema elegíaco, supostamente uma tradução de um texto anónimo italiano do século XVII, e que retoma alguns exageros verbais das histórias, mas desta vez de modo tristíssimo, pungente, e francamente desconcertante.

Esta constante mudança de registo, e a mestria técnica que revela, faz de “Doutor Avalanche” o livro de ficção menos aborrecido do ano.

Pedro Mexia, Ípsilon (jornal Público), 10 de Dezembro de 2010.

A opinião de Henrique Fialho, no Rascunho

In Uncategorized on 07/12/2010 at 23:09

“A leitura dos contos de Rui Manuel Amaral prova-nos nada haver de fácil e gratuito na prática do conto brevíssimo. Os contos de Doutor Avalanche pressupõem um domínio de algumas técnicas narrativas que não são nada fáceis de apurar. Os mestres estão mais que identificados. É inevitável pensarmos em Nikolai Gógol quando lemos a história de um homem que, no encalço de uma orelha que lhe fugiu, deixou a língua sozinha em casa. O espírito de Franz Kafka mostra-se em situações como a do homem que «atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso» descontrolado. Há várias fábulas que nos lembram os poemas em prosa de Russell Edson, embora o nome mais frequentemente invocado seja, sem dúvida, o de Daniil Harms. De resto, esta inevitável associação é o que menos contribui para a emancipação da prosa de Rui Manuel Amaral, a qual incorre com frequência nesse risco de um déjà vu menos apelativo. Por outro lado, haverá quem chame maturidade, ou homogeneidade discursiva, a esta repetição de processos. Seja como for, trata-se de um volume anormal no contexto literário português.

Doutor Avalanche é percorrido, ao longo dos seus quarenta e tal contos, pelo aparecimento inusitado de estrofes, grafadas em itálico, provenientes de um poema de autor italiano anónimo do século XVII. De alguma forma, o conteúdo desse poema ─ Quando gli ucceli portaranno i zoccoli ─ permite inferir a lógica que subjaz às short stories compiladas neste volume. Trata-se de uma lógica ilógica, de uma inversão de sentido que lembra Lewis Carroll. As situações insólitas vivenciadas pelas personagens de Doutor Avalanche têm a característica peculiar de refutarem a organização do mundo. Homens aparentemente banais, com profissões mais ou menos monótonas (actor, escritor, fabricante de olhos de vidro, pescador, obscuro funcionário de uma repartição ministerial…), vêem-se envolvidos em casos excepcionais: Dietrich Dhal evapora-se, Markus Grob trinca a canela da amada, certo homem «de cada vez que se via num espelho descobria em si um rosto novo e desconhecido…» (p. 45). Muitos destes casos, que recolhem manias, ironizam hábitos, representam estranhas metamorfoses, colocam o leitor numa situação de expectativa cujo desenlace raramente justifica.

Rui Manuel Amaral é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das histórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés. Note-se o recurso desmesurado a expressões coloquiais já de si algo dúbias: «meu dito, meu feito», «o caso muda de figura», «sem tirar nem pôr», «dei de caras», «raios me partam», «força de expressão», etc. Os horríveis incidentes que povoam o seu imaginário permitem-lhe desconstruir a precisão narrativa que se impõe como definidora da suposta boa literatura. Há frases simples que definem um estilo: «Não me perguntem como é isto possível porque não saberei responder e isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente» (p. 63); «De repente, acontece uma coisa que pode parecer anormal e, de facto, é» (p. 73); «No entanto, Gerard Geldenhyus sentia-se, digamos, um pouco coiso» (p. 87). Daí que a moral a retirar destes contos não seja apenas a sugerida no remate do conto que termina a páginas 26 ─ «nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita» ─, mas também a de que as coisas têm a sua lógica e sintaxe internas (estejam estas ou não em sintonia com o resto do mundo).”

Henrique Fialho, Rascunho, Dezembro de 2010.

Fnac do Chiado, Lisboa, 04.12.2010

In Uncategorized on 06/12/2010 at 16:09

Imagem do lançamento de Doutor Avalanche em Lisboa, na Fnac do Chiado (4 de Dezembro de 2010). Da direita para a esquerda: Pedro Mexia, Osvaldo Silvestre e Rui Manuel Amaral.

“Doutor Avalanche”, segundo João Morales (revista “Os Meus Livros”)

In Uncategorized on 05/12/2010 at 10:27

Polaroids literárias

“Rui Manuel Amaral regressa às curtas narrativas, histórias em que o impacto é dado pelo final ou, na sua maioria, pela forma como a narrativa se desenvolve – recolhendo elementos do universo do absurdo, de uma linguagem levemente poética ou da estranheza concedida pelos nomes e situações. Como muitos já perceberam, este é o universo criativo habitualmente associado às chamadas micronarrativas (designação que o próprio autor rejeita), género que tem vindo a conhecer um novo fôlego nos anos mais recentes.

A qualidade dos referidos apetrechos literários é razoavelmente boa, na escrita de Rui Manuel Amaral, o que lhe concede uma leitura agradável e proveitosa, recompensando o leitor com a sensação de fazer parte desse universo, inventado a cada página: ‘A eternidade é uma chatice. Mas cada morto tem o seu método particular de combater o tédio’, reflecte o autor no início de um dos textos.

É isso que se passa também com este tipo de escrita, a fórmula parece ser una, pronta a ser plasmada nos textos de cada um, mas, naturalmente, não é bem assim. Rui Manuel Amaral poderá não habitar o zénite deste formato, mas está no bom caminho e sabe manejar a linguagem: ‘Era um homem muito sábio e muito velho chamado Gildrig Glumdalclitch. Gildrig tinha três filhas: Anabel, Arabel e Isabel. Na verdade, tinha apenas duas, Anabel e Arabel, a terceira fui eu que inventei.'”

Avaliação: 4/5.

João Morales, revista Os Meus Livros, Dezembro de 2010.